sexta-feira, 21 de agosto de 2015
Despersonalização e Desumanização no BDSM
"Favor considerar que o que for descrito aqui está sendo feito de forma racional, saudável, consensual, livre de aspectos doentios e dentro dos limites para ambas as partes, objetivando o prazer mútuo."
Existe um tabu acerca da entrega que passa despercebido por muita gente. É a vontade de se entregar mas sem se entregar – mantendo-se consciente e livremente consentindo.
É a sensação de se aventurar cedendo a outra pessoa poderes sobre si mesmo e, ao mesmo tempo, sentir o medo de perder o próprio referencial, de se perder e não mais se encontrar.
Sem falar no medo das críticas vindas do mundo baunilha, e até mesmo dentro do meio BDSM, quando se manifesta o desejo de servir alguém numa escala de entrega fora do padrão aceitável.
Medo de se tornar um robô, alguém que não pensa com a própria cabeça e se torna desprovida de personalidade.
Mas, e quando o prazer advém justamente do ato de se despersonalizar?
E quanto ao desejo, a fantasia, ao fetiche propiamente dito de realizar algo sem ter o padrão humano como referência?
E isso no sentido de abdicar das características humanas e assumir papéis pouco condizente com a nossa natureza.
Vejamos então:
Muito se fala no escravo como sendo a preferência em termos de bottoms extremos, pelo fato dele ser o mais popular entre Tops que possuem apreço por controle e/ou práticas mais hardcore pois, esses bottoms são os que possuem pouco ou quase nenhum limite.
Daí, quando pensamos na palavra que originou o fetiche, vem logo à cabeça a questão da condição desumana a qual um escravo seria submetido.
Sem direitos, apenas deveres.
Mas, isso representaria uma situação de escravidão real e, não é o caso quando transportamos isso para o BDSM. No BDSM não se é um escravo de verdade. É apenas um fetiche idealizado por ambas as partes.
Porém faz pensar que no BDSM existe como fetiche a condição de despersonalização, e até mesmo desumanização do indivíduo dado que, ao assumir certos papéis, nestes casos o BDSMer afasta-se de sua personalidade e características originais.
Então será interessante abordarmos sobre arquétipos de Tops e bottoms que, de alguma forma, mais leve ou extrema, incluem esses elementos em suas relações/sessões.
Um escravo, em geral, é um humano desapropriado de si mesmo. É o seu dono quem detém o poder sobre sua vontade, voz e atos. Um escravo não tem a iniciativa. Ele está sempre em posição de servidão àquele que possui sua posse. Se for da vontade de seu dono, um escravo não detém nem mesmo seu próprio nome, sendo então nomeado a gosto do dono ou atendendo apenas por "escravo".
Atualmente, devido a influência da mídia, é bem comum mais e mais pessoas chegarem ao BDSM se identificando como escravas ou submissas sem ter alguma noção do que realmente seria isso.
É comum, principalmente na internet, ler coisas como:"desejo ser moldada(o) a gosto de meu dono(a)", "quero ser lapidada(o)", "quero viver para servir as vontades de meu dono(a)", "a(o) verdadeira(o) submissa(o) é espelho de seu Senhor(a)"e etc.
Mas ao mesmo tempo exaltarem a questão da personalidade.
Do querer ser moldado mas sem se deixar moldar, de fato.
E aí que entra o primeiro aspecto a ser explorado: A Despersonalização.
"Despersonalização = s.f, 1. Ato ou efeito de despersonalizar(-se).2. Perder ou enjeitar a própria personalidade.3. Proceder contrariamente ao seu .caráter.Processo psíquico no qual surge a impressão de que se é estranho a si mesmo, de que o sentir e o agir carecem de participação ativa, efetuando-se de modo quase automático; ocorre também a sensação de que o corpo ou algumas de suas partes não formam uma unidade [Esp. presente na esquizofrenia.]."
Boa parte das pessoas, na verdade confundem a despersonalização no BDSM (que faz parte de um fetiche consensual de moldar e ser moldado) com uma mudança real que pode vir a prejudicá-las a longo prazo em diversos âmbitos, inclusive relativos à própria sanidade.
No BDSM é fácil para incautos e aproveitadores confundirem, errônea ou propositalmente, fetiches de submissão e escravidão com ter real poder sobre a pessoa. Acreditam serem realmente donos, possuirem o controle ou estarem sob o julgo real de alguém. Daí quando se deparam com situações que fogem da fantasia proposta de início acabam não sabendo como lidar com a realidade do modo como faziam antes. Aliás, é imprescindível que se mantenha o foco na realidade em quaisquer tipos de relações, sejam elas BDSM ou não. Relações que são pautadas apenas em fantasias, idealizações e coisas que não se sustentam por si só, necessitando de fugas de realidade para se concretizarem estão fadadas ao fracasso.
Grande parte das práticas de humilhação estão diretamente ligadas com a despersonalização e até a intensificam.
Na forma verbal, chamar alguém de verme, cadela, puta, estrupício, imprestável etc faz com que seja criado um prazer masoquista em ser colocado abaixo do que se costuma ser. Essas palavras por si sós, nunca serão elogios, por mais que o humilhado aprecie muito. Quando ele sente tesão em ser nomeado como algo sujo, inferior, inútil, ele se despe de sua personalidade e de seus valores para assumir aquele prazer em ser tratado como um pequeno nada. Porém, isso é apenas o seu fetiche naquele momento em questão ou, com determinada pessoa. Devemos ficar atentos se o humilhado realmente passar a assumir para si aquele papel rotineiramente em sua vida.
Verificar se esse papel realmente está lhe dando prazer ou está lhe incomodando.
Se isso acontecer, é indício de que algo não está bem ou está indo longe demais e fugindo da proposta do fetiche.
Na humilhação não-verbal ou em conjunto com esta, intensifica-se ainda mais o sentimento de que se está distante do seu eu original. Situações onde a pessoa se coloca/se deixa colocar como cinzeiro ou sanitário humano, é travestida com roupas do sexo oposto, “forçada” a exibir-se ou a relacionar-se com pessoas do mesmo sexo, degradada publicamente e demais atividades que fora de seu papel original a pessoa não faria, ou não demonstraria prazer algum em ser/fazer, são exemplos de desapego ao seu eu original.
Logicamente, sendo sempre algo sempre consentido aonde respeitam-se os desejos e limites de cada um dos envolvidos, obtém-se o prazer mútuo.
Do contrário, há grande frustração, inclusive da parte do Top, visto que para manter as interações sadias este deve manter o autocontrole ,não ceder a impulsos que podem prejudicar o bottom ou até a si mesmo e certificar-se se algo tem ou não fundamento e possibilidade de ser realizado além de estar pronto para as possíveis consequências.
Exemplo:
Um Top que deseje muito assistir seu bottom tendo relações sexuais ou sessão com outra pessoa, mas não saiba delimitar onde isso se encaixa em si mesmo como mera fantasia que curte mas não tendo certeza de quer em verdade realizar (podendo aqui ocorrerem ciúmes ou auto-censura posterior da parte dele), ou se é algo que realmente seja um fetiche que o deixará satisfeito ao ser realizado.
Ou seja, há até casos em que a pessoa em comando se arrepende de ter conduzido seu bottom em determinado tipo de cena, sessão, tarefa, e isso lhe gera profundo remorso por ter ido longe demais de seus próprios limites.
E há um pior remorso se o bottom também não tiver se sentido confortável com o ato, despersonalizando-se ao realizá-lo apenas para agradar o Top e sofrendo estragos reais com a situação.
Não necessariamente ligado ao ato de moldar ou se deixar moldar, há outro aspecto que também não pode passar despercebido nessas observações: Desumanização.
"Desumanização = s.f Ato ou efeito de desumanizar. Perda de determinadas qualidades morais humanas. Desumanizar = verbo transitivo pronominal. Tornar ou tornar-se desumano. Tirar ou perder o caráter humano."
O que viria a ser humano? Geralmente é o que é relativo ao homem como espécie.
O ser humano distingue-se dos outros animais por agir com racionalidade.
Possui grande capacidade mental e habilidade para desenvolver utensílios e adquirir conhecimento. Humano também adquire sinônimo de bondade, generosidade, compreensão, no sentido do agir adequado do homem para com sua própria espécie.
No BDSM, no entanto, temos desejos que buscam em maior ou menor grau o sentido inverso de tudo isso. A própria busca pela satisfação do próprio prazer já costuma ser recriminada mas, ainda sim possui atributos humanos. Longe de citar exemplos extremos que vão contra o consenso, existe o prazer em se sentir desumano no BDSM e alguns são bem comuns.
O pet é um bom exemplo disso. No petplay, o bottom se descaracteriza de seu eu humano e interpreta um animal da forma mais fielmente possível que ele conseguir. Ele vai se caracterizar como animal de estimação, ele vai adotar os trejeitos desse animal e vai agir como ele. Dispensará até a linguagem humana, em alguns casos, utilizando-a apenas caso precise dizer a palavra de segurança (safeword). O Top, em cena, não estará interagindo com uma pessoa fantasiada de animal. Ele estará interagindo com seu animal e como tal o tratará. O pet humano é um conceito um pouco diferente pois se trata de um ser humano reduzido à um animal. Ainda humano, mas essencialmente desprovido de toda a forma de ações que seriam características. Embora muita gente ache até fofo, o pet é o exemplo de desumanização mais facilmente encontrado no BDSM.
No Beastplay os papéis são como os de um predador e sua presa sendo que esta pode ser humana ou não. A figura do predador será a de uma besta tal qual sugere o nome da prática. Desde um animal feroz existente à criaturas imaginárias, sendo estas antropomórficas ou não. Leões, gorilas, sátiros, vampiros, lobisomens, demônios e etc se encaixam nesse tipo de roleplay onde, geralmente o Top vai assumir o papel que é desprovido de humanidade. Nada impede que o bottom também esteja descaracterizado como humano neste tipo de cena. Sem o fator humano, a tendência será a de explorar o prazer vindo do instinto, da coerção, da brutalidade, do medo e etc, os quais estes tipos de seres nos inspiram. Parceiros que curtem bloodplays envolvendo ingestão de sangue podem vir a gostar de interpretar um vampiro e sua presa. Ou sátiros e ninfas podem servir como inspiração para um rough sex atípico. A criatividade é que vai ser o fator determinante para uma sessão nesses moldes. Sem contar o prazer advindo da interpretação até lúdica, de um papel fantástico bastante distinto de sua vivência normal onde a pessoa se afasta de sua normalidade pra se permitir fazer algo fora do comum.
Outro exemplo curioso de desumanização são as mobílias. Há quem sinta prazer em dar utilidade ao seu bottom fazendo dele um móvel ou objeto decorativo. Desde ficar de quatro e servir de banquinho ou apoio para pés, até apoiar ou segurar objetos enquanto serve de estante, mesa e o que mais fomentar a imaginação. Tal ato pode ser aplicado como castigo, como disciplina, ou a gosto do Top. É diferente do prazer da objetificação e também da objetofilia. Na objetificação temos pessoas tratadas como objetos humanos, como mercadoria de muito ou pouco valor, com ênfase na sensualidade e apelo sexual, no jogo de poder onde a pessoa se apresenta de forma perfeita, impecável, apenas pra servir aos prazeres de outrem, com ou sem a humilhação como fator.
(Obs.: Objetificação seria uma das formas de despersonalização. Já na objetofilia temos uma parafilia onde pessoas se sentem sexualmente/emotivamente atraídas por objetos. Há casos de pessoas que sentem vontade de transar com carros, com livros, jarros de planta, canecas, travesseiros, balões, mesas e etc. Enfim, as pessoas demonstram ter alguma excitação por determinados objetos que não costumam excitar a maioria dos seres comuns e, por vezes, acabam desenvolvendo sentimentos por esses objetos lhes atribuindo até humanidade.)
No fetiche de mobília, ou furniture fetish em inglês, o bottom interpreta um objeto utilitário que, além de não possui nenhum fator humano, sequer se trata de um ser vivo. É um roleplay entre o Top e uma coisa inanimada.
Mobílias não falam e nem se movem. Mobílias tem utilidade mas não são providas de vida. Logo, toda a ação da mobília vai consistir no Top montando-a(definindo sua posição e função)e arrumando-a(organizando possíveis objetos que ela possa sustentar, segurar, equilibrar...). A partir daí ele poderá apenas apreciá-la ou utilizá-la de alguma forma sem que fuja do princípio de que a mobília é um objeto.
Despersonalizar-se ou desumanizar-se são, a meu ver, grandes signos primários de entrega. Entrega esta que é tão banalizada e pouco compreendida. Quem se submete está, em maior ou menor grau, sujeito à despersonalização ou desumanização.
"Sou um submisso(a) mas tenho personalidade!".
Claro que sim! E deve ter!
Não se trata de se tornar um robô, um autômato em forma humana que deixa de pensar por conta própria apenas para atender os desejos de outrem.
Mas sim de fazê-lo somente dentro de um fetiche mútuo.
Tops que estimulam seus bottoms a manterem sua personalidade, seus gostos, sua individualidade, tendem a apreciar ainda mais quando estes se despersonalizam em sessão ou em momentos propícios combinados previamente se sentem que o bottom está fazendo por prazer e não por imposição. Da mesma forma, o bottom irá sentir confiante em relação ao Top percebendo que tais cuidados são tomados.
Quem nunca se sentiu seguro ao ver que o Top que inflige castigos e inspira temor e autoridade durante as sessões na exata medida que aprecia, também é uma pessoa divertida e que demonstra carinho, zelo e proteção a seu bottom?
Sessão, afinal, não é um lugar onde a pessoa vai extravasar algo doentio que pode vir a prejudicar o parceiro.
O sádico BDSMer não pode ser alguém que realmente deseja o sofrimento e não se importe com o prazer do outro.
Alguém que seja controlador e autoritário na vida baunilha não deve achar que esse meio é um paraíso onde poderá fazer o que quiser com a vida de alguém.
Pessoas assim, ao invés de quererem saber o modo correto de proceder, tendem a ficar procurando brechas que justifiquem seus atos errados, ferindo o consenso e disfarçando de BDSM.
O resultado nunca é bom a médio ou longo prazo.
Quando se instituem situações entre Top e bottom onde apenas uma parte está sendo privilegiada, tem algo errado.
Se está ruim para um, na prática está ruim para todos.
E tendo isso em mente, entendemos que no BDSM praticado de forma saudável, o ato de desumanizar-se ou despersonalizar-se adquire características distintas daquelas que seriam suas definições mais típicas de uso fora deste.
No BDSM salutar, dentro da desumanização ou despersonalização fluimos na direção da realização de desejos e fantasias, interpretando um papel que na prática nos libera de nós mesmos, criando um contexto que desinibe a livre manifestação daquilo que não nos sentiríamos à vontade para fazer normalmente – e que foi livremente consentida - enquanto que a personalidade e a consciência na prática estão salvaguardadas.
Sendo diferente de uma situação real e patológica aonde de fato somos forçados à nos privar de nós mesmos.
Autores: Lili Leverdi e Don Marco Alighieri