sexta-feira, 21 de agosto de 2015
Despersonalização e Desumanização no BDSM
"Favor considerar que o que for descrito aqui está sendo feito de forma racional, saudável, consensual, livre de aspectos doentios e dentro dos limites para ambas as partes, objetivando o prazer mútuo."
Existe um tabu acerca da entrega que passa despercebido por muita gente. É a vontade de se entregar mas sem se entregar – mantendo-se consciente e livremente consentindo.
É a sensação de se aventurar cedendo a outra pessoa poderes sobre si mesmo e, ao mesmo tempo, sentir o medo de perder o próprio referencial, de se perder e não mais se encontrar.
Sem falar no medo das críticas vindas do mundo baunilha, e até mesmo dentro do meio BDSM, quando se manifesta o desejo de servir alguém numa escala de entrega fora do padrão aceitável.
Medo de se tornar um robô, alguém que não pensa com a própria cabeça e se torna desprovida de personalidade.
Mas, e quando o prazer advém justamente do ato de se despersonalizar?
E quanto ao desejo, a fantasia, ao fetiche propiamente dito de realizar algo sem ter o padrão humano como referência?
E isso no sentido de abdicar das características humanas e assumir papéis pouco condizente com a nossa natureza.
Vejamos então:
Muito se fala no escravo como sendo a preferência em termos de bottoms extremos, pelo fato dele ser o mais popular entre Tops que possuem apreço por controle e/ou práticas mais hardcore pois, esses bottoms são os que possuem pouco ou quase nenhum limite.
Daí, quando pensamos na palavra que originou o fetiche, vem logo à cabeça a questão da condição desumana a qual um escravo seria submetido.
Sem direitos, apenas deveres.
Mas, isso representaria uma situação de escravidão real e, não é o caso quando transportamos isso para o BDSM. No BDSM não se é um escravo de verdade. É apenas um fetiche idealizado por ambas as partes.
Porém faz pensar que no BDSM existe como fetiche a condição de despersonalização, e até mesmo desumanização do indivíduo dado que, ao assumir certos papéis, nestes casos o BDSMer afasta-se de sua personalidade e características originais.
Então será interessante abordarmos sobre arquétipos de Tops e bottoms que, de alguma forma, mais leve ou extrema, incluem esses elementos em suas relações/sessões.
Um escravo, em geral, é um humano desapropriado de si mesmo. É o seu dono quem detém o poder sobre sua vontade, voz e atos. Um escravo não tem a iniciativa. Ele está sempre em posição de servidão àquele que possui sua posse. Se for da vontade de seu dono, um escravo não detém nem mesmo seu próprio nome, sendo então nomeado a gosto do dono ou atendendo apenas por "escravo".
Atualmente, devido a influência da mídia, é bem comum mais e mais pessoas chegarem ao BDSM se identificando como escravas ou submissas sem ter alguma noção do que realmente seria isso.
É comum, principalmente na internet, ler coisas como:"desejo ser moldada(o) a gosto de meu dono(a)", "quero ser lapidada(o)", "quero viver para servir as vontades de meu dono(a)", "a(o) verdadeira(o) submissa(o) é espelho de seu Senhor(a)"e etc.
Mas ao mesmo tempo exaltarem a questão da personalidade.
Do querer ser moldado mas sem se deixar moldar, de fato.
E aí que entra o primeiro aspecto a ser explorado: A Despersonalização.
"Despersonalização = s.f, 1. Ato ou efeito de despersonalizar(-se).2. Perder ou enjeitar a própria personalidade.3. Proceder contrariamente ao seu .caráter.Processo psíquico no qual surge a impressão de que se é estranho a si mesmo, de que o sentir e o agir carecem de participação ativa, efetuando-se de modo quase automático; ocorre também a sensação de que o corpo ou algumas de suas partes não formam uma unidade [Esp. presente na esquizofrenia.]."
Boa parte das pessoas, na verdade confundem a despersonalização no BDSM (que faz parte de um fetiche consensual de moldar e ser moldado) com uma mudança real que pode vir a prejudicá-las a longo prazo em diversos âmbitos, inclusive relativos à própria sanidade.
No BDSM é fácil para incautos e aproveitadores confundirem, errônea ou propositalmente, fetiches de submissão e escravidão com ter real poder sobre a pessoa. Acreditam serem realmente donos, possuirem o controle ou estarem sob o julgo real de alguém. Daí quando se deparam com situações que fogem da fantasia proposta de início acabam não sabendo como lidar com a realidade do modo como faziam antes. Aliás, é imprescindível que se mantenha o foco na realidade em quaisquer tipos de relações, sejam elas BDSM ou não. Relações que são pautadas apenas em fantasias, idealizações e coisas que não se sustentam por si só, necessitando de fugas de realidade para se concretizarem estão fadadas ao fracasso.
Grande parte das práticas de humilhação estão diretamente ligadas com a despersonalização e até a intensificam.
Na forma verbal, chamar alguém de verme, cadela, puta, estrupício, imprestável etc faz com que seja criado um prazer masoquista em ser colocado abaixo do que se costuma ser. Essas palavras por si sós, nunca serão elogios, por mais que o humilhado aprecie muito. Quando ele sente tesão em ser nomeado como algo sujo, inferior, inútil, ele se despe de sua personalidade e de seus valores para assumir aquele prazer em ser tratado como um pequeno nada. Porém, isso é apenas o seu fetiche naquele momento em questão ou, com determinada pessoa. Devemos ficar atentos se o humilhado realmente passar a assumir para si aquele papel rotineiramente em sua vida.
Verificar se esse papel realmente está lhe dando prazer ou está lhe incomodando.
Se isso acontecer, é indício de que algo não está bem ou está indo longe demais e fugindo da proposta do fetiche.
Na humilhação não-verbal ou em conjunto com esta, intensifica-se ainda mais o sentimento de que se está distante do seu eu original. Situações onde a pessoa se coloca/se deixa colocar como cinzeiro ou sanitário humano, é travestida com roupas do sexo oposto, “forçada” a exibir-se ou a relacionar-se com pessoas do mesmo sexo, degradada publicamente e demais atividades que fora de seu papel original a pessoa não faria, ou não demonstraria prazer algum em ser/fazer, são exemplos de desapego ao seu eu original.
Logicamente, sendo sempre algo sempre consentido aonde respeitam-se os desejos e limites de cada um dos envolvidos, obtém-se o prazer mútuo.
Do contrário, há grande frustração, inclusive da parte do Top, visto que para manter as interações sadias este deve manter o autocontrole ,não ceder a impulsos que podem prejudicar o bottom ou até a si mesmo e certificar-se se algo tem ou não fundamento e possibilidade de ser realizado além de estar pronto para as possíveis consequências.
Exemplo:
Um Top que deseje muito assistir seu bottom tendo relações sexuais ou sessão com outra pessoa, mas não saiba delimitar onde isso se encaixa em si mesmo como mera fantasia que curte mas não tendo certeza de quer em verdade realizar (podendo aqui ocorrerem ciúmes ou auto-censura posterior da parte dele), ou se é algo que realmente seja um fetiche que o deixará satisfeito ao ser realizado.
Ou seja, há até casos em que a pessoa em comando se arrepende de ter conduzido seu bottom em determinado tipo de cena, sessão, tarefa, e isso lhe gera profundo remorso por ter ido longe demais de seus próprios limites.
E há um pior remorso se o bottom também não tiver se sentido confortável com o ato, despersonalizando-se ao realizá-lo apenas para agradar o Top e sofrendo estragos reais com a situação.
Não necessariamente ligado ao ato de moldar ou se deixar moldar, há outro aspecto que também não pode passar despercebido nessas observações: Desumanização.
"Desumanização = s.f Ato ou efeito de desumanizar. Perda de determinadas qualidades morais humanas. Desumanizar = verbo transitivo pronominal. Tornar ou tornar-se desumano. Tirar ou perder o caráter humano."
O que viria a ser humano? Geralmente é o que é relativo ao homem como espécie.
O ser humano distingue-se dos outros animais por agir com racionalidade.
Possui grande capacidade mental e habilidade para desenvolver utensílios e adquirir conhecimento. Humano também adquire sinônimo de bondade, generosidade, compreensão, no sentido do agir adequado do homem para com sua própria espécie.
No BDSM, no entanto, temos desejos que buscam em maior ou menor grau o sentido inverso de tudo isso. A própria busca pela satisfação do próprio prazer já costuma ser recriminada mas, ainda sim possui atributos humanos. Longe de citar exemplos extremos que vão contra o consenso, existe o prazer em se sentir desumano no BDSM e alguns são bem comuns.
O pet é um bom exemplo disso. No petplay, o bottom se descaracteriza de seu eu humano e interpreta um animal da forma mais fielmente possível que ele conseguir. Ele vai se caracterizar como animal de estimação, ele vai adotar os trejeitos desse animal e vai agir como ele. Dispensará até a linguagem humana, em alguns casos, utilizando-a apenas caso precise dizer a palavra de segurança (safeword). O Top, em cena, não estará interagindo com uma pessoa fantasiada de animal. Ele estará interagindo com seu animal e como tal o tratará. O pet humano é um conceito um pouco diferente pois se trata de um ser humano reduzido à um animal. Ainda humano, mas essencialmente desprovido de toda a forma de ações que seriam características. Embora muita gente ache até fofo, o pet é o exemplo de desumanização mais facilmente encontrado no BDSM.
No Beastplay os papéis são como os de um predador e sua presa sendo que esta pode ser humana ou não. A figura do predador será a de uma besta tal qual sugere o nome da prática. Desde um animal feroz existente à criaturas imaginárias, sendo estas antropomórficas ou não. Leões, gorilas, sátiros, vampiros, lobisomens, demônios e etc se encaixam nesse tipo de roleplay onde, geralmente o Top vai assumir o papel que é desprovido de humanidade. Nada impede que o bottom também esteja descaracterizado como humano neste tipo de cena. Sem o fator humano, a tendência será a de explorar o prazer vindo do instinto, da coerção, da brutalidade, do medo e etc, os quais estes tipos de seres nos inspiram. Parceiros que curtem bloodplays envolvendo ingestão de sangue podem vir a gostar de interpretar um vampiro e sua presa. Ou sátiros e ninfas podem servir como inspiração para um rough sex atípico. A criatividade é que vai ser o fator determinante para uma sessão nesses moldes. Sem contar o prazer advindo da interpretação até lúdica, de um papel fantástico bastante distinto de sua vivência normal onde a pessoa se afasta de sua normalidade pra se permitir fazer algo fora do comum.
Outro exemplo curioso de desumanização são as mobílias. Há quem sinta prazer em dar utilidade ao seu bottom fazendo dele um móvel ou objeto decorativo. Desde ficar de quatro e servir de banquinho ou apoio para pés, até apoiar ou segurar objetos enquanto serve de estante, mesa e o que mais fomentar a imaginação. Tal ato pode ser aplicado como castigo, como disciplina, ou a gosto do Top. É diferente do prazer da objetificação e também da objetofilia. Na objetificação temos pessoas tratadas como objetos humanos, como mercadoria de muito ou pouco valor, com ênfase na sensualidade e apelo sexual, no jogo de poder onde a pessoa se apresenta de forma perfeita, impecável, apenas pra servir aos prazeres de outrem, com ou sem a humilhação como fator.
(Obs.: Objetificação seria uma das formas de despersonalização. Já na objetofilia temos uma parafilia onde pessoas se sentem sexualmente/emotivamente atraídas por objetos. Há casos de pessoas que sentem vontade de transar com carros, com livros, jarros de planta, canecas, travesseiros, balões, mesas e etc. Enfim, as pessoas demonstram ter alguma excitação por determinados objetos que não costumam excitar a maioria dos seres comuns e, por vezes, acabam desenvolvendo sentimentos por esses objetos lhes atribuindo até humanidade.)
No fetiche de mobília, ou furniture fetish em inglês, o bottom interpreta um objeto utilitário que, além de não possui nenhum fator humano, sequer se trata de um ser vivo. É um roleplay entre o Top e uma coisa inanimada.
Mobílias não falam e nem se movem. Mobílias tem utilidade mas não são providas de vida. Logo, toda a ação da mobília vai consistir no Top montando-a(definindo sua posição e função)e arrumando-a(organizando possíveis objetos que ela possa sustentar, segurar, equilibrar...). A partir daí ele poderá apenas apreciá-la ou utilizá-la de alguma forma sem que fuja do princípio de que a mobília é um objeto.
Despersonalizar-se ou desumanizar-se são, a meu ver, grandes signos primários de entrega. Entrega esta que é tão banalizada e pouco compreendida. Quem se submete está, em maior ou menor grau, sujeito à despersonalização ou desumanização.
"Sou um submisso(a) mas tenho personalidade!".
Claro que sim! E deve ter!
Não se trata de se tornar um robô, um autômato em forma humana que deixa de pensar por conta própria apenas para atender os desejos de outrem.
Mas sim de fazê-lo somente dentro de um fetiche mútuo.
Tops que estimulam seus bottoms a manterem sua personalidade, seus gostos, sua individualidade, tendem a apreciar ainda mais quando estes se despersonalizam em sessão ou em momentos propícios combinados previamente se sentem que o bottom está fazendo por prazer e não por imposição. Da mesma forma, o bottom irá sentir confiante em relação ao Top percebendo que tais cuidados são tomados.
Quem nunca se sentiu seguro ao ver que o Top que inflige castigos e inspira temor e autoridade durante as sessões na exata medida que aprecia, também é uma pessoa divertida e que demonstra carinho, zelo e proteção a seu bottom?
Sessão, afinal, não é um lugar onde a pessoa vai extravasar algo doentio que pode vir a prejudicar o parceiro.
O sádico BDSMer não pode ser alguém que realmente deseja o sofrimento e não se importe com o prazer do outro.
Alguém que seja controlador e autoritário na vida baunilha não deve achar que esse meio é um paraíso onde poderá fazer o que quiser com a vida de alguém.
Pessoas assim, ao invés de quererem saber o modo correto de proceder, tendem a ficar procurando brechas que justifiquem seus atos errados, ferindo o consenso e disfarçando de BDSM.
O resultado nunca é bom a médio ou longo prazo.
Quando se instituem situações entre Top e bottom onde apenas uma parte está sendo privilegiada, tem algo errado.
Se está ruim para um, na prática está ruim para todos.
E tendo isso em mente, entendemos que no BDSM praticado de forma saudável, o ato de desumanizar-se ou despersonalizar-se adquire características distintas daquelas que seriam suas definições mais típicas de uso fora deste.
No BDSM salutar, dentro da desumanização ou despersonalização fluimos na direção da realização de desejos e fantasias, interpretando um papel que na prática nos libera de nós mesmos, criando um contexto que desinibe a livre manifestação daquilo que não nos sentiríamos à vontade para fazer normalmente – e que foi livremente consentida - enquanto que a personalidade e a consciência na prática estão salvaguardadas.
Sendo diferente de uma situação real e patológica aonde de fato somos forçados à nos privar de nós mesmos.
Autores: Lili Leverdi e Don Marco Alighieri
Brats
Muito se fala das tais brats, citados como sendo uma
espécie de submisso rebelde que apronta de tudo para perturbar e receber
castigos de seu dono. Vamos desmistificar. ^^
O que é um brat?
Brat é um tipo de bottom focado na Disciplina. Não são submissos pois não sentem prazer em se submeter. Seu prazer consiste em provocar o Top de diversas formas, de acordo com sua personalidade, bem como impor resistência durante as sessões, mas sempre mantendo o respeito à limites do parceiro. Essa provocação já é algo esperado pelo Top, pois faz parte do jogo de disciplina, e este, então, reage à provocação "castigando o bottom" (praticando então o sadomasoquismo e/ou bondage).
A palavra "brat" é de língua inglesa e significa "fedelho ou pirralho(a)".
A origem desse bottom remete a prática do ageplay, mais precisamente ao infantilismo e a efebofilia - que dentro da cronofilia seria atração por adolescentes - onde o Top e o bottom realizam um roleplay nos papéis Daddy Dom ou Mommy Domme e Little Boy ou Little Girl. O brat surgiu como uma criança/adolescente bastante arteira e mimada interagindo com o Top em várias situações de malcriação e castigo, causa e consequência, etc. Na prática do ageplay encontramos as maiores referências aos brats, incluindo a cena clássica de punição onde o Top, sentado numa cadeira tendo o bottom brat de bruços em seu colo, dá fortes palmadas na bunda deste, por vezes com a nomenclatura "spanking the spoiled brat" (batendo no pirralho birrento).
Por que brat não é um tipo de submisso? Sempre leio isso por aí...
Brat não é submisso porque não tem prazer algum específico na submissão. Obedece quando quer, quando lhe é conveniente ou quando está sendo subjugado, mas dificilmente porque alguém espera que ele obedeça. Esse não é seu papel, foge da sua essência. O brat sempre vai tentar tirar partido das situações, da forma que mais lhe favoreça. Exemplos: um brat masoquista sempre vai tentar conseguir mais punições dolorosas pra se satisfazer, e vai usar de seus ardis pra irritar o Top se for preciso, seja questionando sua posição, seja questionando seus métodos ou a sua capacidade para certos feitos e falhando em tarefas. Aliás, questionar faz parte da provocação típica de alguns brats. É o típico: "Me domine se for capaz!". Um brat no bondage vai estar sempre tentando se soltar. No shibari, de vez em quando vai se mexer e tentar desfazer o trabalho de seu Top. No petplay vai ser um animal dificil de amansar, ou esnobe demais, ou excessivamente carente a ponto de irritar, ou preguiçoso a ponto de não querer brincar e etc. No military fetish corresponde a um soldado que falha ou questiona ordens.
Mas por que brat não é submisso?
Simples, um ser que desobedece e provoca sempre que vê oportunidade pode ter alguma essência submissa?! Submissos são focados em Dominação e submissão (D/s), brats em Disciplina (D). Logo, não devemos nomear como sendo submisso quem não está nem aí para a submissão. No entanto? Brat NÃO é um Bottom que desrespeite seu Top, que faça coisas fora dos limites deste, que ponha em perigo uma cena com elementos arriscados (velas, fogo, agulhas, facas, etc.) nem alguém que na relação vá abusar de seu parceiro minando sua paciência.
E os tais submissos rebeldes? São brats?
Não! Muitos Dominadores chamam de “bratty subs”, até de forma pejorativa, mas são Submissos que, por algum motivo, se rebelaram contra seus tops, passaram a agir de forma não esperada e/ou quebraram a hierarquia. “Submissos rebeldes” normalmente teriam prazer em submissão. Se o motivo for puramente pirraça ou algum "teste", estes Subs aprontam com seus Tops mas logo se arrependem retornando ao seu comportamento normal, sendo a rebeldia um estado momentâneo, passageiro. Um brat, em contrapartida, provoca e sente prazer em ter provocado. É parte do seu prazer e de sua maneira de proceder em cena.
Em outros casos, trata-se de reação normal de revolta e/ou imposição de limites, quando o Top gera algum tipo de insatisfação por falhar em dialogar na relação, desrespeitar seus limites, fomentar ciúme e/ou receios com irmãos ou irmãs de coleira, ter má conduta dentro do meio BDSM, ameaçar ou praticar o abandono do bottom, desrespeitar seus sentimentos e/ou objetivo do relacionamento, etc. – o que, nesse caso não é rebeldia, mas um protesto coerente.
Há também as situações em que foi colocado como submisso um Bottom SEM a característica de sentir prazer na Submissão, ou que talvez tenha preferência por uma submissão mais branda ou somente em cena, ou ainda um Switcher – ou alguém que esteja se descobrindo um Switcher - com vontade de praticar seu lado dominante de alguma forma e, por consequência, sentindo-se tolhido. E então este Bottom não aguenta a situação a longo prazo e protesta, sendo esta uma situação em que houve erro de um dos parceiros (ou de ambos): falta de entendimento mútuo, empolgação demasiada, O rótulo foi imposto pelo Top ou ainda houve tentativa de "agradar o Top à qualquer custo" por parte do bottom. E - claro - não nos esqueçamos do famoso SAM (Smart assed Masochist) que seria uma pessoa masoquista porém não-submissa colocada no papel de submisso e que na realidade vai tentar mandar na cena e/ou no Top, agindo como um "espertinho" no mau sentido. (E este não é um Brat... Aqui teríamos uma pessoa que se sairia muito melhor como Masoquista-não submisso, Dominador Masoquista ou coisa parecida, mas que age de forma manipulativa adotando o rótulo de submisso OU trata-se de alguém que foi colocado erradamente no papel de submisso por um Top inapto em reconhecer seus traços.)
Ou seja: subs rebeldes não são brats. São apenas subs agindo de forma que seus donos não compreendem e, portanto, recebem apelidos que seus Tops considerem pejorativos.
E por quê uma boa parte dos Tops não gosta de brats, ao ponto de usarem o termo pejorativamente?
A maioria dos Tops brasileiros se identifica com o tipo Dominador (Dom) e a maioria dos bottoms se identifica como sendo submissos (subs). O tipo Dom não é nem de longe o ideal para um brat. Brat não dá certo em D/s, pois a intenção do Dom será a de tentar “converter” esse brat num tipo submisso, coisa que não está na essência e nem nos planos deste bottom. É um cabo de guerra sem fim, onde um vai ficar medindo forças com o outro e não vão chegar a lugar algum. Geralmente se torna uma relação bastante aborrecida de se viver. Na maioria das vezes que Top do tipo Dom diz que não gosta de brats, é devido a dois motivos:
1- Se interessou por uma e depois se deu mal porque quis transformar ela numa submissa. 2- Ouviu outros Doms dizerem que não gostam de brats e resolveu recitar o mantra sem nem ao menos entender que nem só de Dom e sub, vive o BDSM.
E qual é o Top que gosta de brat?
É o Tamer! Tamer significa "domador" em inglês. É um Top que não sente prazer na sessão em dominar, mas sim em disciplinar constantemente uma pessoa rebelde. Por vezes gosta de sentir-se "castigando-a" com as práticas. E tudo isso faz parte da mecânica da Disciplina. Nesse ponto a Disciplina de um Brat é muito mais baseada nos "castigos", e são estes que criam contextos para a prática de Sadomasoquismo ou Bondage (dentro dos limites e das preferências do Brat). Estas práticas, aliadas à sensação de punição, são parte do jogo entre Brat e Tamer . Enquanto que a Disciplina com outros tipos de Bottoms geralmente coloca suas práticas favoritas e alguns agrados como "prêmios" para suas ações, e como "castigos" coisas percebidas como enfadonhas (colocar o Bottom sentado sozinho em um canto) ou que não sejam suas favoritas mas que estejam ainda assim dentro de seus limites.
Quem geralmente se torna um bom Tamer?
Tipicamente quem não goste de bottom muito submisso, escravo ou obediente demais. Que esteja disposto a conhecer e respeitar esse bottom da forma que ele é. Que entenda e goste desse jogo de disciplina sem ambicionar, posteriormente, transformar esse bottom em algum outro tipo que lhe agrade mais. Quem aspira a se tornar um Top desse tipo deve também entender a diferença básica entre ter um bottom que se submete a ele (Submisso) e ter um bottom a quem ele deve subjugar (Brat). O submisso oferece sua submissão ao Top prometendo ser obediente, bom submisso, servil, gentil, e etc. O brat não tem submissão nenhuma pra oferecer, sendo parte da mecânica da relação o Top ter que subjugá-lo para que este se dê por vencido. E quando consegue isso, é algo temporário. Não existe promessa de obediência por parte do brat. Quando menos se espera, mais cedo ou mais tarde, ele aprontará outra vez, e outra vez, e outra vez... ^^
É possível trabalhar Brats e Subs na mesma sessão?
Sim. Em primeiro lugar, o Top logicamente precisa compreender e apreciar ambas as mecânicas (ser Tamer e Dominador). Em segundo? Combinar a sessão para que todos ajam dentro de seus papéis SEM que o brat atrapalhe a interação do Top com o Submisso. Em terceiro? Aproveitar a sinergia na qual: - As interações com o Submisso, aonde ele obedece o Top à risca e recebe as práticas, geram contexto para o Brat se rebelar quando for a vez dele. - As interações com o Brat, aonde ele se rebela e é "punido" por sua audácia, geram ao Submisso uma impressão maior ainda de poder do Top.
Autores: Lili Leverdi e Don Marco Alighieri
O que é um brat?
Brat é um tipo de bottom focado na Disciplina. Não são submissos pois não sentem prazer em se submeter. Seu prazer consiste em provocar o Top de diversas formas, de acordo com sua personalidade, bem como impor resistência durante as sessões, mas sempre mantendo o respeito à limites do parceiro. Essa provocação já é algo esperado pelo Top, pois faz parte do jogo de disciplina, e este, então, reage à provocação "castigando o bottom" (praticando então o sadomasoquismo e/ou bondage).
A palavra "brat" é de língua inglesa e significa "fedelho ou pirralho(a)".
A origem desse bottom remete a prática do ageplay, mais precisamente ao infantilismo e a efebofilia - que dentro da cronofilia seria atração por adolescentes - onde o Top e o bottom realizam um roleplay nos papéis Daddy Dom ou Mommy Domme e Little Boy ou Little Girl. O brat surgiu como uma criança/adolescente bastante arteira e mimada interagindo com o Top em várias situações de malcriação e castigo, causa e consequência, etc. Na prática do ageplay encontramos as maiores referências aos brats, incluindo a cena clássica de punição onde o Top, sentado numa cadeira tendo o bottom brat de bruços em seu colo, dá fortes palmadas na bunda deste, por vezes com a nomenclatura "spanking the spoiled brat" (batendo no pirralho birrento).
Por que brat não é um tipo de submisso? Sempre leio isso por aí...
Brat não é submisso porque não tem prazer algum específico na submissão. Obedece quando quer, quando lhe é conveniente ou quando está sendo subjugado, mas dificilmente porque alguém espera que ele obedeça. Esse não é seu papel, foge da sua essência. O brat sempre vai tentar tirar partido das situações, da forma que mais lhe favoreça. Exemplos: um brat masoquista sempre vai tentar conseguir mais punições dolorosas pra se satisfazer, e vai usar de seus ardis pra irritar o Top se for preciso, seja questionando sua posição, seja questionando seus métodos ou a sua capacidade para certos feitos e falhando em tarefas. Aliás, questionar faz parte da provocação típica de alguns brats. É o típico: "Me domine se for capaz!". Um brat no bondage vai estar sempre tentando se soltar. No shibari, de vez em quando vai se mexer e tentar desfazer o trabalho de seu Top. No petplay vai ser um animal dificil de amansar, ou esnobe demais, ou excessivamente carente a ponto de irritar, ou preguiçoso a ponto de não querer brincar e etc. No military fetish corresponde a um soldado que falha ou questiona ordens.
Mas por que brat não é submisso?
Simples, um ser que desobedece e provoca sempre que vê oportunidade pode ter alguma essência submissa?! Submissos são focados em Dominação e submissão (D/s), brats em Disciplina (D). Logo, não devemos nomear como sendo submisso quem não está nem aí para a submissão. No entanto? Brat NÃO é um Bottom que desrespeite seu Top, que faça coisas fora dos limites deste, que ponha em perigo uma cena com elementos arriscados (velas, fogo, agulhas, facas, etc.) nem alguém que na relação vá abusar de seu parceiro minando sua paciência.
E os tais submissos rebeldes? São brats?
Não! Muitos Dominadores chamam de “bratty subs”, até de forma pejorativa, mas são Submissos que, por algum motivo, se rebelaram contra seus tops, passaram a agir de forma não esperada e/ou quebraram a hierarquia. “Submissos rebeldes” normalmente teriam prazer em submissão. Se o motivo for puramente pirraça ou algum "teste", estes Subs aprontam com seus Tops mas logo se arrependem retornando ao seu comportamento normal, sendo a rebeldia um estado momentâneo, passageiro. Um brat, em contrapartida, provoca e sente prazer em ter provocado. É parte do seu prazer e de sua maneira de proceder em cena.
Em outros casos, trata-se de reação normal de revolta e/ou imposição de limites, quando o Top gera algum tipo de insatisfação por falhar em dialogar na relação, desrespeitar seus limites, fomentar ciúme e/ou receios com irmãos ou irmãs de coleira, ter má conduta dentro do meio BDSM, ameaçar ou praticar o abandono do bottom, desrespeitar seus sentimentos e/ou objetivo do relacionamento, etc. – o que, nesse caso não é rebeldia, mas um protesto coerente.
Há também as situações em que foi colocado como submisso um Bottom SEM a característica de sentir prazer na Submissão, ou que talvez tenha preferência por uma submissão mais branda ou somente em cena, ou ainda um Switcher – ou alguém que esteja se descobrindo um Switcher - com vontade de praticar seu lado dominante de alguma forma e, por consequência, sentindo-se tolhido. E então este Bottom não aguenta a situação a longo prazo e protesta, sendo esta uma situação em que houve erro de um dos parceiros (ou de ambos): falta de entendimento mútuo, empolgação demasiada, O rótulo foi imposto pelo Top ou ainda houve tentativa de "agradar o Top à qualquer custo" por parte do bottom. E - claro - não nos esqueçamos do famoso SAM (Smart assed Masochist) que seria uma pessoa masoquista porém não-submissa colocada no papel de submisso e que na realidade vai tentar mandar na cena e/ou no Top, agindo como um "espertinho" no mau sentido. (E este não é um Brat... Aqui teríamos uma pessoa que se sairia muito melhor como Masoquista-não submisso, Dominador Masoquista ou coisa parecida, mas que age de forma manipulativa adotando o rótulo de submisso OU trata-se de alguém que foi colocado erradamente no papel de submisso por um Top inapto em reconhecer seus traços.)
Ou seja: subs rebeldes não são brats. São apenas subs agindo de forma que seus donos não compreendem e, portanto, recebem apelidos que seus Tops considerem pejorativos.
E por quê uma boa parte dos Tops não gosta de brats, ao ponto de usarem o termo pejorativamente?
A maioria dos Tops brasileiros se identifica com o tipo Dominador (Dom) e a maioria dos bottoms se identifica como sendo submissos (subs). O tipo Dom não é nem de longe o ideal para um brat. Brat não dá certo em D/s, pois a intenção do Dom será a de tentar “converter” esse brat num tipo submisso, coisa que não está na essência e nem nos planos deste bottom. É um cabo de guerra sem fim, onde um vai ficar medindo forças com o outro e não vão chegar a lugar algum. Geralmente se torna uma relação bastante aborrecida de se viver. Na maioria das vezes que Top do tipo Dom diz que não gosta de brats, é devido a dois motivos:
1- Se interessou por uma e depois se deu mal porque quis transformar ela numa submissa. 2- Ouviu outros Doms dizerem que não gostam de brats e resolveu recitar o mantra sem nem ao menos entender que nem só de Dom e sub, vive o BDSM.
E qual é o Top que gosta de brat?
É o Tamer! Tamer significa "domador" em inglês. É um Top que não sente prazer na sessão em dominar, mas sim em disciplinar constantemente uma pessoa rebelde. Por vezes gosta de sentir-se "castigando-a" com as práticas. E tudo isso faz parte da mecânica da Disciplina. Nesse ponto a Disciplina de um Brat é muito mais baseada nos "castigos", e são estes que criam contextos para a prática de Sadomasoquismo ou Bondage (dentro dos limites e das preferências do Brat). Estas práticas, aliadas à sensação de punição, são parte do jogo entre Brat e Tamer . Enquanto que a Disciplina com outros tipos de Bottoms geralmente coloca suas práticas favoritas e alguns agrados como "prêmios" para suas ações, e como "castigos" coisas percebidas como enfadonhas (colocar o Bottom sentado sozinho em um canto) ou que não sejam suas favoritas mas que estejam ainda assim dentro de seus limites.
Quem geralmente se torna um bom Tamer?
Tipicamente quem não goste de bottom muito submisso, escravo ou obediente demais. Que esteja disposto a conhecer e respeitar esse bottom da forma que ele é. Que entenda e goste desse jogo de disciplina sem ambicionar, posteriormente, transformar esse bottom em algum outro tipo que lhe agrade mais. Quem aspira a se tornar um Top desse tipo deve também entender a diferença básica entre ter um bottom que se submete a ele (Submisso) e ter um bottom a quem ele deve subjugar (Brat). O submisso oferece sua submissão ao Top prometendo ser obediente, bom submisso, servil, gentil, e etc. O brat não tem submissão nenhuma pra oferecer, sendo parte da mecânica da relação o Top ter que subjugá-lo para que este se dê por vencido. E quando consegue isso, é algo temporário. Não existe promessa de obediência por parte do brat. Quando menos se espera, mais cedo ou mais tarde, ele aprontará outra vez, e outra vez, e outra vez... ^^
É possível trabalhar Brats e Subs na mesma sessão?
Sim. Em primeiro lugar, o Top logicamente precisa compreender e apreciar ambas as mecânicas (ser Tamer e Dominador). Em segundo? Combinar a sessão para que todos ajam dentro de seus papéis SEM que o brat atrapalhe a interação do Top com o Submisso. Em terceiro? Aproveitar a sinergia na qual: - As interações com o Submisso, aonde ele obedece o Top à risca e recebe as práticas, geram contexto para o Brat se rebelar quando for a vez dele. - As interações com o Brat, aonde ele se rebela e é "punido" por sua audácia, geram ao Submisso uma impressão maior ainda de poder do Top.
Autores: Lili Leverdi e Don Marco Alighieri
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